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Amigo é coisa para se guardar

Bocaiúva, 27 de outubro de 2013.

 

Primo,

 

Curtindo neste domingo ensolarado um calor de 37 graus e I can stop loving you, Kiss me quick, King creole e outras músicas de Elvis Presley viajei no tempo e ouvi o Wan-Dyck Dumont me dizendo: “A gente pode faltar a uma festa que ninguém sente falta, mas a um velório ou a uma visita a um amigo doente…”. Em seguida, a minha neta Gabriela, na época com seis aninhos: “Aniversário é muito bom, porque a gente ganha presente; mas é ruim, porque a gente fica mais velha”. O escritor bocaiuvense Drumond Amorim também visitou os meus pensamentos e deu o seu inteligente pitaco: “Ficar velho pode não ser bom, mas a outra opção é pior”.

Pois é, Primo, antes de se chegar aos 40 anos de idade a gente pensa que é imortal. Quando entra na fase dos “entas” – quarenta, cinqüenta, sessenta, setenta, oitenta e noventa – é que a gente percebe que não é bem assim. A cada aniversário não é um ano a mais; é a menos. Aí começamos a rever os valores com grande profundidade. A família e os verdadeiros amigos vão ganhando um espaço maior nos nossos relacionamentos, não é mesmo? Por conta do que disse a minha neta, a gente, às vezes, prefere não ganhar presentes só para não lembrar que está ficando mais velho. Porém, ficamos enciumados se os amigos não lembrarem. Afinal, estamos vivos e, como disse o Amorim, esta opção é a melhor. Aniversariei dia 19 passado e, como sempre acontece, tentei esconder a data. O dedo duro do facebook, no entanto, bateu com a língua nos dentes e, por conta disso, recebi uma enxurrada de cumprimentos. Não queria, não queria, mas acabei gostando. Obrigado a você! Caso encontre por aí alguém que tenha me mandado mensagem, agradeça-o por mim.

E o Wan-Dyk Dumont, onde entra nessa história? Deve estar pensando. Eu explico: quarta-feira passada, a menos de 100 metros da minha casa e às três e meia da tarde, fui agredido com um tamborete por um sujeito que nunca tinha visto antes; nem ele e nem o tamborete. Uns dizem que ele é maluco e vive agredindo transeuntes pelas ruas da cidade; outros, inclusive alguns policiais, atribuem as suas agressões ao uso imoderado de bebida alcoólica e crack. Disseram que eu fui apenas mais uma vítima, que estava passando no lugar errado, na hora errada. “A gente prende ele num dia e eles soltam no outro”, acrescentaram. Já no hospital, com dez pontos na cabeça, começaram os telefonemas dos amigos – os verdadeiros, é claro! Outros me visitaram em casa. Afinal, fui visto ensangüentado na rua, saiu no facebook e foi notícia nas rádios da cidade. Ficou difícil não saber. Os meus colegas de boteco preferiram aguardar o meu retorno às rodas para brincar: “Uai, disse que você foi agredido por causa de uma disputa de pontos de drogas?” e outras brincadeirinhas, que eu até compartilho. Esses, eu vou fazer um esforço para não esquecer; os outros, como diria Wan-Dyck, não vai ser preciso esforço nenhum, pois, segundo Milton Nascimento, amigo é coisa para se guardar, debaixo de sete chaves, dentro do coração.

 

Obrigado, Primo, meu amigo de fé, meu irmão camarada!

 

Pedro Cabeça Dura Rodriguez

 

EM TEMPO: O sujeito está preso, mas caso continue o “prendemos hoje e eles soltam amanhã”, não esqueça de trazer o capacete quando vier a Bocaiúva.

Um comentário

  1. Primo,

    O seu sangue é bom. Muitos poderiam ter passado a não na sua cabeça e lambido do seu sangue para que nunca se esquecessem de ser felizes.

    Primo, já que você nunca fala de políticos, quero lhe informar que aqui em São Paulo o vandalismo e a violência correm soltos e ninguém faz nada. Também não há leis no País, não é? Só há as que favorecem os criminosos. Isto todo mundo sabe, só não sabe Primo, que na frente dos portões do Palácio dos Bandeirantes, do Geraldo Alkmin, ( que não é o nosso ALKMÍM, o daqui é Álkmin,) existem cinco barracos de papelão e plástico, onde moram desde junho, pessoas de rua que protestam não se sabe por que, enquanto que na frente da Assembléia Legislativa há exatamente a mesma coisa. É sujeira prá todo lado, Primo. E o Governador e os Deputados não têm coragem de tirar essa imundície da frente de suas casas tão imponentes. Então Primo, o que esperar dessas autoridades quanto a acabar com as desordens e vandalismo? Será que elas esperam ser reeleitas com os votos dos sem tetos e dos bandidos mascarados? E olhe que têm muitos sem máscaras inflitratos no meio! É por isso, Primo, e pelas tamboretadas, que pretendo, urgentemente me mudar para o meu pequeno AP em Marbela , na Costa do Sol, na Espanha.

    Um abraço

    do Primo, que apesar da idade, é como o alho, tem a cabeça branca mas o talo verde

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