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O ECLIPSE TOTAL DO SOL EM 20/05/1947 – BOCAIUVA (MG)

O ECLIPSE TOTAL DO SOL EM 20/05/1947 – BOCAIUVA (MG)

Há sessenta e seis anos. O dia em que o dia virou noite. Bocaiuva esteve no cenário mundial.

Juca Brandão*

Dois vigorosos pilares sustentavam a história e o destino de Bocaiúva na década de quarenta. Um era o espiritual, com fincas na imagem do padroeiro Senhor do Bom Fim. O outro estava alicerçado na glória do filho já famoso no cenário político do país, o Dr. José Maria Alkmim, que ocupou vários cargos no cenário político mineiro chegando a Ministro da Fazenda e à Vice – Presidência da Republica.
Entretanto, no dia 20 de maio de 1947, a escuridão do eclipse total do sol acabou ofuscando, ainda que por momentos, essas duas marcantes referências. Fazendo-se a luz (Fiat luz), logo após a ocorrência do fenômeno (o eclipse) o alicerce da historia da cidade, acabou sendo reforçado com o acontecimento extraordinário.

A CHEGADA DOS AMERICANOS

Os primeiros americanos aportaram na cidade de Bocaiúva, vindo de Montes Claros, aonde aterrissaram, primeiramente, no mês de julho de 1946.
Quase uma odisséia para se alcançar o destino, pois, praticamente só existia uma precária estrada de rodagem unindo-se Montes Claros a Bocaiuva. Na verdade, era quase carroçável. A E.F.C.B (Estrada de Ferro Central do Brasil), inaugurada em 1926 naquela cidade, não dispunha de vagões especiais para transportá-los, assim como os seus sofisticados aparelhos e instrumentos. Vieram então por terra enfrentando poeira, buracos e enormes pedras no caminho afora.
Enfim, de chegança à terra do Senhor do Bom se alojaram no antigo Hotel Bom Fim ou hotel de dona Conceição, situado no simpático Bairro Pernambuco, a caminho da estação da Central do Brasil. O pequeno e desconfortável hotel, naquela ocasião estava passando por reformas no seu telhado, o que piorou a situação dos novos e estranhos hóspedes. Contudo, sob as expensas da Prefeitura Municipal, esse melhoramento fora agilizado e concluído, a fim de melhor acolher todos os “gringos” pelos 128 soldados americanos acantonados em Bocaiúva.
Depois é que vieram as enormes máquinas de esteiras, paltrol, tratores comuns, o famoso caminhão de dez rodas (alegria e admiração da meninada) e muitos jeeps. Esses permitiam aos americanos circularem pela pequenina cidade e pelas vizinhanças esburacadas.
O prefeito da época era Elpídio de Assis Freire (Dulcinho), uma pessoa bondosa e alegre, nomeado pelo governador Milton Campos, a fim de preparar a eleições do Cel. Flamínio de Assis Freire, correligionário do governo estadual.
Porém, Geraldo Caldeira Valle, habilmente cordial com a missão americana e se preparando para disputar as eleições de 1947(viera ser o vice da chapa pessedista encabeçada por Carlos Dias Júnior) ofereceu à sua ajuda ao comandante da missão norte-americana, no sentido de eles conhecerem toda a área a ser utilizada pelas pesquisas dos americanos. Com isso, ganhou deles a simpatia e uma perna fraturada, em um acidente quando explorava, com os yanques, o lugar correto, onde seria futuramente construído o acampamento principal, na localidade denominada Extrema. Área escolhida para ser base cientifica.

EXTREMA, O PONTO FULMINANTE

Os estudos preliminares para a observação do eclipse foram feitos na América do Norte. A área, na qual ocorreria o ponto máximo do eclipse total do sol, já estava delimitada nos mapas americanos. E ficava perto da cidade mineira de Bocaiúva, no Estado de Minas Gerais, Brasil!
Todavia, a coordenada para se chegar até o lugar, ou seja, ao ponto exato, ficou por conta da missão recém chegada e instalada na sede do município de Bocaiuva. O primeiro ponto referencial, denominado Ponte Queimada, designação desconhecida até pelo experimentado Geraldo Valle, logo foi procurado e localizado. Assim, então, nos estudos de tal coordenada se chegou, com exatidão, ao lugar ideal: Extrema.
Exatamente ali, a 24 quilômetros da cidade, numa área constituída de várias várzeas e cerrados ralos, estava o ponto almejado. E que meses depois, seria alvo da admiração de todo o planeta.
No lugar foram construídas varias edificações: alojamentos para os militares e os cientistas de diversas partes do mundo; refeitórios; salas de estudos de mapas e plantas; banheiros; cozinhas e até cinema.
Na área externa foram construídas bases profundas, sobre as quais foram instaladas lunetas enormes, gigantescos telescópios e outros tantos aparelhos de precisão.
Também, aproveitaram a regularidade de um terreno, bastante plano e próximo, numa das inúmeras várzeas existentes, e ali construíram um pequeno campo de pouso.
Num verdadeiro complexo cientifico se viu transformada a gleba denominada de Extrema, então desconhecida do estado, do país e do mundo. Lá, uma estação meteorológica começou a funcionar desde princípios de 1947. Depois, uma estação de radares, de rádios, um centro de teletipos e outros tantos instrumentos de observação e comunicação. Balões meteorológicos, soltos todos os dias, coloriam e ornamentavam o céu limpo do sertão norte mineiro.

O QUE ACONTECEU…

Nas cercanias de Bocaiúva, em dezembro de 1946, os americanos começaram a construir um grande campo de pouso, cuja pista de aterrissagem, depois de concluída mediu 1250 metros de comprimento por 150 metros de largura. Lá edificaram, também, um pequeno hangar. Depois, os alojamentos para os seguranças e os operadores de pista.
O atraente campo de aviação passou a ser alvo de passeio de moradores (a pé) e recreação da população e de curiosos. Ali desciam, diariamente, os aviões DC-3 Douglas, quase todos transformados em aviões cargueiros.

O LAZER DOS ESTRANGEIROS

Os americanos tinham como entretenimento, poucas opções lá nas duas bases. O cinema, que funcionava todos os dias, e jogos de futebol americano, disputados nos dias de folgas, na beira dos dois campos de pouso.
Afora esses divertimentos, eles adoravam se espairecer no Bar Vitória, onde se deliciavam com a nossa cerveja. Elas eram geladas pelas duas geladeiras a querosene lá existentes. Ali descobriram um estoque de velhos whiskies, bebidas que estavam encalacradas nas prateleiras. Acabaram com todas as garrafas em poucos dias!
Admiravam mesmo (e como eram assíduos) de um bordel de Madame Rolla. A dona da chamada casa alegre, que ficava ao meio de um beco, numa viela denominada de Sete de Setembro, situada entre as antigas ruas Dom Pedro II(ora José Brandão Filho) e Direita (Cel.Versiane) teve de recorrer primeiramente às chamadas mulheres de vida livre, ou frequentadas, da vizinha cidade de Montes Claros. E como à procura do sexo acelerou na comunidade, ou seja, no bordel de Madame Rolla, esta recorreu às famosas mulheres livres do Estado da Bahia (Vitória da Conquista). E de lá vieram prostitutas bonitas para eles namorarem, para gáudio também de certos figurões da cidade, quase todos “bem casados”…
Os militares mais graduados eram mais discretos nas suas atuações mundanas. Observavam com o devido respeito o costume pudico da sociedade bocaiuvense. Alguns deles arranhavam o Português. Os mais simpáticos, tais como o sargento Bruce, os capitães Raisck e Schmidt, tinham sempre à oportunidade da aproximação de moçoilas recatadas de Bocaiúva.

O ASSISTENTE DE EINSTEIN

O Dr. George Van Biesbrock, considerado um sábio, era um belga naturalizado americano. Foi ele quem chefiou a missão cientifica em Bocaiúva, por ocasião do Eclipse Total do Sol. É descabida e falsa, a informação de certos desavisados, que Einsten viera a Bocaiuva observar e estudar o ansiado e aguardado. Até por que, ele estava enfermo à época. A missão principal de seu assistente, Dr. Biesbrock teria de comprovar a Teoria da Relatividade, defendida pelo gênio Einstein.
A teoria sustenta que os raios de luz das estrelas distantes, somente visíveis nos rápidos instantes do eclipse do sol, curvam-se ligeiramente a um ângulo muito pequeno, uma fração mínima de segundo de arco, ou uma fração mínima de um grau de uma circunferência. A curvatura das estrelas, conforme já se sabia, é causada pela ação gravitacional do sol, que desvia os raios do caminho reto, enquanto eles passam na medida atual.
No instante exato do eclipse, Dr. Van Biesbrock, usando um grande telescópio de 20 pés, fotografou certas estrelas e mediu a curvatura de suas luzes ao passar perto do sol. Três meses depois, ou seja, em agosto do ano de 1947, ele voltou ao Brasil, veio até Bocaiuva – Extrema – e com o mesmo instrumento fotografou as estrelas na posição em que elas foram localizadas no dia do eclipse. O resultado do exame dessas fotografias acabou provando o que predisse Einstein, trazendo novas evidências em favor da Teoria da Relatividade.
Embora a relatividade não aja no dia-a-dia, é importante conhecer o átomo e o universo, sublinhou o Dr. Harold F. Weaver, do National Geographic Society.

O DIA DA ESCURIDÃO

A cidadezinha de antes, aonde a vida ia se consumindo entre súplicas, orações e poucas esperanças, parecia querer mudar-se. Sempre lerda acomodada e pachorrenta, acabou ganhando outra roupagem. Os dólares misturados com o pobre cruzeiro, o jeans e até a fala. Não tão assim, como a Greeville, antiga novela das oito da TV Globo, mas se arriscavam nas expressões inglesas: all right, thanks you, stop, go out, yes, good night, come back, money, good bye, hello, because e ok!.
Parecia, naqueles dias fervilhantes de pré eclipse não mais querer ser inimiga do progresso. Só se comparava com as outras cidadezinhas, na estação de trens, na praça do coreto, na cadeia vazia, na prefeitura sem rendas, no clube social de poucos bailes, no cineminha roscofe, na casa suspeita (mas que todo o mundo sabia onde era) e nas missas dominicais.
Travestiu-se de vez. Desde cedo os aviões foram chegando e pousando; o ruído ensurdecedor dos motores das B-29 – fortalezas voadoras – sobrevoando os céus, desde dias atrás; os muitos carros (jeeps, automóveis, fordinhos e caminhões); os microfones dos locutores de línguas estranhas; os flashes dos fotógrafos; as indagações dos jornalistas e tudo mais.
O lusco-fusco começando de mansinho, as aves e os passarinhos em busca de seus poleiros e os bichos à procura das tocas. E veio a escuridão total.
Em Extrema, a barulhada do maquinário nas manobras para se postar na posição exata, os cientistas, assistentes e auxiliares pasmos pela maravilha do fenômeno natural – visível no mesmo lugar, de uma infinidade de, assim se diziam à época.
Milhares de fotografias foram tiradas, as gravações imediatamente transmitidas aos Estados Unidos pelo teletipo internacional e observatório.
Na região de Bocaiúva, a primeira fase parcial do eclipse (quando a lua começa ocultar o sol) começou às 8h: 22h06min, (oito horas, vinte e dois minuto e seis segundo). O eclipse total (quando a lua oculta complemente o sol) começou 9h: 34h08min (nove horas, trinta e quatro minutos e oito segundos) e terminou as 9 h: 38: 06 (nove horas, trinta e oito minutos, seis segundos). A segunda fase parcial (quando a lua se afasta completamente do sol) terminou às 11h.
A voz vibrante de Manoel Barcellos, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro transmitiu o eclipse, na sua duração de 3 minutos e 48 segundos. A Rádio Nacional do Rio de Janeiro, com seu famoso Repórter Esso, testemunha ocular da história, na voz marcante de Heron Domingues, em cadeia com outras rádios do Brasil e de outros países, lançou o nome de Bocaiúva no cenário mundial.

COMO SE PORTARAM OS HABITANTES BOCAIUVA

Tanto população da cidade, como as dos distritos e dos povoados receberam instruções de como iria transcorrer o fenômeno.
Na sede do município, através dos próprios americanos que falavam a língua portuguesa e por alguns oficiais brasileiros, aconteceram palestras sobre o eclipse. A sua razão de ser à luz da ciência, a sua duração e a sua consequência para os cientistas. Essas reuniões foram quase frequentes até na véspera do eclipse, aconteceram no Fórum, no então Grupo Escolar Cel. Fulgêncio e na Matriz do Senhor do Bom Fim. O sentido era se evitar pânico na hora máxima do eclipse.
A Prefeitura Municipal teve também o mesmo cuidado de enviar os seus funcionários aos distritos mais distantes, como Terra Branca e Conceição do Barreiro (hoje Francisco Dumont) com o mesmo sentido, ou seja, de se evitar correria e debandada durante o evento ou fenômeno da natureza.

LIÇÕES DA CIÊNCIA

Os estudos realizados em Bocaiúva foram muito úteis décadas depois, nas realizações de experiências espaciais. Os cientistas que observaram o fenômeno, considerado àquela época, o único e mais importante na história, para a comprovação de adiantados estudos, já previstos durante a sua ocorrência, acabaram tornando-se a cidade conhecida como “Centro do Mundo”. Embora sem alarde, tais descobertas contribuíram para se forjar o manual para voos futuros, que incluíram a chegada do homem à lua.
Foi no Norte de Minas que os americanos, europeus e demais povos civilizados aprenderam a conhecer a imensidão existente ao redor do sol e em volta da lua. Foi aqui, neste pedaço de vida, que os maiores astrônomos da humanidade encontraram os indicadores das futuras pesquisas, que transformariam o cosmo numa caixinha sem segredos. Até a recente descoberta de que há água em Marte e em outros planetas fora de nossa galáxia. Os mais apaixonados extremistas dizem que, não fora o eclipse de Bocaiúva, a NASA jamais teria colocado um ser humano em órbita e o levado até a lua.
O fato é que, 65 anos depois, a ciência avançou e não mais se observou no país e com tanta ansiedade e expectativa, a mais “dramática e formidável exibição da natureza, o Eclipse Total do Sol”.

* Pesquisador da história de Bocaiuva

3 comentários

  1. Muito orgulhoso dessa cidade maravilhosa que amo muito que e minha queridissima Bocauiva

  2. “Um dia a lua chorou, o sol se apagou quem viu?” (Zé Leonado)

  3. ahahahahaha então faço parte desta hístória meus tios bisavôs Flaminio Freire e Epidio de Assis Freire.

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