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NOS VELHOS TEMPOS ERA ASSIM…

NOS VELHOS TEMPOS ERA ASSIM…

Texto de Romildo Brandão
Edição de Juca Brandão (12/04/2013)

Os preparativos se iniciavam no princípio de junho. As casas e os estabelecimentos comerciais, para a alegria dos pedreiros, eram reformados, pintados ou caiados em função do grande evento. Os alfaiates e as costureiras começavam mais cedo. Desde o mês de março trabalhavam intensamente no atendimento de incontáveis pedidos. Era época de se usar ternos e vestidos novos, ou melhor, a ocasião especial exigia roupa nova para todo mundo.
A Prefeitura Municipal fazia a sua parte, arrumando as ruas e tapando os buracos com cascalho, à exceção da rua “direita” que possuía calçamento de grandes pedras. A partir do dia 15 de junho, os dias passavam rapidamente e a ansiedade da espera tomava conta de todos.

Os padres e as ligas religiosas, auxiliados por um sem número de dedicados voluntários, trabalhavam com afinco na elaboração do aguardado Programa da Festa. Trabalhavam, também, na confecção de bandeiras, bandeirolas e, ainda eram responsáveis pela designação daqueles que organizariam a grandiosa procissão, com grande participação de devotos nos quadros vivos.
O Dr. Alkmim ficava encarregado de conseguir a banda de música de Diamantina e, no último caso, a de Montes Claros mesmo. Os bocaiuvenses que estudavam em Belo Horizonte, Montes Claros e em outras cidades, não viam à hora do término das provas parciais, a fim de retornarem à terra natal.
Eis que chega a primeira semana de julho! Na sexta feira a cidade começava a tomar ares festivos. O caminhão pipa, sempre emprestado pela Prefeitura Municipal de Montes Claros, começava a molhar as ruas da cidade, quase todas poeirentas. Automóveis, bicicletas, carroções, carroças, carros de bois e muitos cavaleiros transitavam pela cidade. A chegada do trem de ferro, trazendo os amigos, convidados, estudantes, namoradas, namorados, parentes era uma ocasião especial!
O Hotel Bom Fim e as pensões de Bilú (Belizária Martins Rodrigues), dona Carmina Freire, Chico Roxo e o albergue do Chico de Ruão ficavam lotados. O largo do mercado, a partir das 16 horas, triplicava o seu movimento com a chegada dos feirantes, trazendo suas cargas para a feira do dia seguinte. Os enormes quintais se transformavam em grandes rancharias dos que vinham das roças. No sábado era um corre-corre danado. Os alfaiates entregavam os últimos ternos encomendados e as costureiras davam os derradeiros arremates nas suas costuras.

A Igreja, por sua vez, já enfeitada, recebia os fiéis e as filas dos confessionários não paravam de crescer. À tarde do mesmo dia, Bocaiúva abrigava o dobro de sua população, enquanto que os comerciantes esfregavam as mãos, dando graças ao Senhor Padroeiro pelos resultados financeiros obtidos.
À noite, na chamada véspera da Festa, no começo da antiga Rua Dom Pedro II, hoje, José Brandão Filho, nos arredores da Praça da Matriz, algumas dezenas de barracas de mascates, de vendedores de brevidades, de tira-gostos variados e mais uma porção de coisas gostosas (a de Piroca – Pedro Alcântara da Silva – era uma delas), fervilhava de pessoas. Um recanto e na parte de baixo da Praça da Igreja era quase todo ocupado com as tradicionais barraquinhas e uma multidão incalculável de fiéis tomava conta de todo o restante do Largo. A barraquinha do coelho, ali instalada anualmente, ganhava disparada, à preferência das crianças. De olhos esbugalhados, assim como atentas, elas aguardavam ansiosas que o chapéu a cobrir o coelho fosse retirado para vê-lo, assustado, entrar numa das inúmeras casas em miniaturas, dispostas em círculo, torcendo desesperadamente, em silêncio, pela conquista do prêmio.
A rapaziada, após umas “moreninhas” – mistura de sucos de laranja, limão e adicionadas com bicarbonato – na venda e o no Beco de Vicentão, dirigia-se à Praça da Igreja, pois se aproximava a hora do levantamento do mastro. A bandeira vinha sempre da casa de Brázida Alves Praes, entre duas fileiras de tochas acesas e coloridas, sob o comando de Zé Cafubá (José de Oliveira Versiane). Estava se aproximando a hora da queima da fogueira, do leilão e, principalmente, do espetáculo pirotécnico da lavra de Justino Fogueteiro (Justino Vieira), que explodia e iluminava o céu de Bocaiúva com “lágrimas coloridas”, “estrelas”, “morteiros”, “adrianinos de um ou mais tiros”, “foguete de vara” (“rabo”), ao tempo em que os fiéis mais fervorosos enchiam a igreja.
O Bocaiúva Club e a Sede (União Operária) realizavam seus memoráveis bailes, onde se exigiam o traje de passeio completo para os cavalheiros e os vestidos chiques para as damas. Dico de Zé Neto(Raimundo Moreira da Silva) promovia o seu baile com entrada franca, mas pagamento obrigatório na saída. Os bailes no salão de João de Flora que, durante o dia eram sociáveis e, à noite nem tanto, começavam sob o toque da sanfona de Nêgo Dé (Manoel Bispo de Oliveira). O festejado Cabaret de Madame Rola(Ana Maria de Jesus), reforçado com as “damas” importadas, assim como os prostíbulos de Ana Torada , Isabelzinha e Laurinda, se apresentavam com grande movimentação de forasteiros. Os habitués dos bordeis da cidade, nesses dias renunciavam à perdição. Havia uma reconciliação com a fé e um bom tempo reservado e dedicado ao evento religioso, bem como aos comportados bailes nos dois clubes sociais.
O domingo amanhecia aos sons do repicar dos sinos, pelo velho sacristão Oscar (Oscar Euzébio da Cruz) e da tocata marcial da banda de música, anunciando a alvorada. A missa campal às 9 horas, coadjuvada por muitos padres e animada por um belíssimo coral, sob a batuta de dona Alzira Câmara, era onde todos estreavam suas roupas novas. Assim como todos os anos, assistida por milhares de pessoas, dentre elas um grande número, com os “olhos de ontem”, pois as sadias farras e os bailes varavam a madrugada.
O ajantarado, com a participação dos convidados de outras cidades, antecedia o momento tão esperado. As ruas cuidadosamente molhadas e depois varridas começavam a ser enfeitadas, especialmente aquelas pelas quais passaria a procissão. Bonitas toalhas nas janelas e flores artisticamente dispostas pelo chão indicavam que à hora se aproximava.
Às 16 horas, com o povo lotando todo o largo da Igreja, iniciava-se a procissão, antecedida por duas longas fileiras de cavaleiros. Estes vestidos de branco, assim como os arreios e as montarias na mesma alvura. A banda de música tocava seus “dobrados” e os fiéis, em alas bem definidas, seguiam, devagar, pelo longo trajeto. O andor principal, levando a imagem do Padroeiro, era disputado a cada passo pelos fiéis que queriam carregá-lo ou, simplesmente, andar ao seu lado. De vez em quando a passagem da imagem era saudada com uma bateria de fogos de artifício. No olhar de cada um a alegria, o respeito e a fé inabalável no Senhor do Bom Fim.
Ao final de seu trajeto e depois de abraçar a cidade, a procissão retornava à Praça da Igreja. Padre Dudu (Hermano Morais) nascido em Bocaiúva, mas morando desde longos anos em Montes Claros, em seguida, recepcionava o Padroeiro com vivas e muitos aplausos, apoiado pela unanimidade dos fiéis. A emoção se apossava de todos e os nossos corações batiam aceleradamente. A pregação de um padre, especialmente convidado, encerrava o cortejo, e a multidão se espalhava pela praça, agradecida por estar presente a mais uma FESTA DO SENHOR DO BOM FIM de Bocaiúva.

Um comentário

  1. José Olimpio Silva

    Primo,

    O artigo do Romildo é uma fotografia indelével da Festa do Senhor do Bom Fim, assim como a sua própria foto que me faz lembrar o seu tio Quelé que tantas alegrias me proporcionou com sua amizade aqui em São Paulo. Marvilhosas reminiscências.

    Zé Olimpio (Zelim)

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